45 dias de criação,
escuta e território

FRIGÉNIA

Ao longo de 45 dias, entre 6 de outubro e 19 de novembro de 2026, artistas de diferentes geografias e práticas irão viver e trabalhar no Torrão, desenvolvendo processos de investigação e criação a partir da paisagem, da memória, da oralidade, da matéria e das pessoas do território.

O projeto toma como ponto de partida Frigénia Maria da Conceição Sequeira, poetisa popular do Torrão, não para construir apenas um retrato biográfico, mas para abrir uma reflexão mais ampla sobre uma geração cuja experiência foi profundamente marcada pelo Alentejo rural de meados do século XX.

A sua poesia, criada e transmitida oralmente, acompanha também o ponto de partida da residência:

“O papel com que te escrevo
Saiu-me da palma da mão
A tinta saiu-me dos olhos
E a pena do coração.”

— Frigénia Maria da Conceição Sequeira

É desta voz — e das muitas vozes, gestos, memórias e conhecimentos da sua geração — que nasce FRIGÉNIA.

O território como ponto de partida

FRIGÉNIA procura aproximar a criação contemporânea de formas de conhecimento que muitas vezes permaneceram fora dos arquivos formais.

Histórias transmitidas oralmente, poemas e cantos, gestos, trabalho agrícola, saberes manuais, formas de construir e habitar, relação com a terra e as plantas, receitas, memórias familiares e conhecimentos passados entre gerações tornam-se matéria de encontro, investigação e criação.

Para efeitos de mediação, o projeto procurará sobretudo pessoas nascidas entre aproximadamente 1930 e 1950, sem transformar este intervalo num critério rígido.

Mais importante do que a idade será a experiência direta de modos de vida, trabalho, sociabilidade e relação com o território que sofreram profundas transformações nas últimas décadas.

As pessoas da comunidade não são entendidas como objetos de recolha, mas como participantes e detentoras de conhecimento, num processo assente em escuta, consentimento, confiança e reciprocidade.

4 artistas em residência

Mili Vizcaíno — Espanha

Mili trabalha a partir da música, da oralidade e do património imaterial.

Durante a residência irá investigar formas de memória transmitidas através de conversas, canções, conhecimentos quotidianos, práticas rurais, plantas, receitas, remédios caseiros e antigos saberes.

Uma das linhas que poderá explorar relaciona-se com a memória das mulheres ligadas ao trabalho agrícola e com formas de canto e sociabilidade associadas a esse universo, incluindo o Ladrão do Sado como possível ponto de entrada para outras histórias e memórias.

Luca Gori — Itália

O trabalho de Luca parte da perceção sensorial da paisagem, particularmente através do tato e do olfato.

Interessa-lhe compreender como terra, pedra, cal, vegetação, materiais, arquitetura, clima e formas de habitar constroem uma experiência do lugar.

No Torrão irá aproximar-se de práticas construtivas, materiais locais, plantas, caminhos e saberes transmitidos através do fazer, cruzando experiência corporal, paisagem e conhecimento vernacular.

Hanna Ilczyszyn — Bélgica / Polónia

Hanna trabalha entre a pintura e a cerâmica, explorando relações entre pessoas, memória, pertença e lugar.

A sua própria história familiar, marcada por deslocações entre países e gerações, conduz a perguntas sobre ficar, partir, regressar e pertencer.

No Torrão irá trabalhar a partir de encontros, histórias de vida, fotografias familiares, paisagem e memória, procurando compreender como pessoas e lugares transportam as marcas do tempo.

Sadrie Alves — Bélgica / Brasil

Sadrie trabalha entre artes visuais, performance, escrita, vídeo e têxteis.

A sua investigação parte das canções de embalar e da transmissão oral entre mulheres e gerações: quem cantava, quem ensinava, quem ainda se lembra e o que permanece quando palavras ou melodias começam a desaparecer.

O trabalho poderá cruzar voz, cuidado, infância, família, migração, memória e diferentes formas de transmissão.

O projeto associado de Jeanne Roualet

Em diálogo com a residência estará também Jeanne Roualet, artista francesa residente em Évora, com um projeto associado à FRIGÉNIA.

O trabalho de Jeanne parte diretamente da poesia oral de Frigénia e de uma pergunta central:

Como escrever uma poesia que sempre existiu fora da escrita?

A artista propõe desenvolver um sistema gráfico inspirado em formas antigas de inscrição, procurando registar não apenas palavras, mas também ritmo, respiração, pausas, repetição e inflexão.

Estes sinais poderão ser inscritos em elementos de argila ou tijolo, transformando voz, memória e oralidade em matéria e instalação.

45 dias de escuta, investigação e criação

A residência não parte de uma agenda artística fechada.

Durante as primeiras semanas, os artistas irão caminhar pelo território, conhecer pessoas, visitar lugares, ouvir histórias, observar práticas e testar as perguntas com que chegaram ao Torrão.

A investigação será acompanhada por uma estrutura de mentoria e mediação comunitária, permitindo aproximar os artistas de diferentes formas de conhecimento local sem condicionar a autonomia de cada processo criativo.

Patrícia Hortinhas assegura a mentoria de proximidade e a mediação comunitária ao longo da residência, acompanhando regularmente os artistas, preparando e contextualizando encontros e garantindo continuidade entre os diferentes momentos do processo.

Rita Antonieta Neves assegura a coordenação e o acompanhamento transversal da residência, articulando artistas, mentores, comunidade, projetos DaST e parceiros.

Participam ainda, em diferentes momentos e a partir das suas áreas de experiência, Frédéric Coustols, Carlos Bragança Santos, Simon Punter, Phil Hawes, António Ricardo Costa e Filipa Assis.

Apresentação pública

Nos dias 14 e 15 de novembro, a FRIGÉNIA abrirá os processos desenvolvidos ao público.

Mais do que apresentar cinco resultados isolados, pretende-se criar um momento de partilha capaz de revelar as diferentes relações construídas entre memória, voz, matéria, paisagem, corpo e território.

A residência termina formalmente a 19 de novembro, depois de 45 dias de investigação, criação e vida partilhada no Torrão.

Impacto para além do crescimento

A primeira edição da FRIGÉNIA representa:

– 45 dias de residência artística no Torrão;
– 4 artistas internacionais apoiados pelo Culture Moves Europe / Goethe Institut;
– 1 projeto artístico associado;
– artistas provenientes de Espanha, Itália, Bélgica e França;
– processos de investigação em torno de memória, oralidade, património imaterial, paisagem, arquitetura, matéria e transmissão intergeracional;
– envolvimento de pessoas da comunidade enquanto participantes e detentoras de conhecimento;
– acompanhamento continuado de mentoria e mediação comunitária;
– articulação entre criação artística, território, investigação e projetos em curso no Torrão LAB;
– apresentação pública nos dias 14 e 15 de novembro;
– criação de documentação e arquivo do processo.

Para além destes resultados, FRIGÉNIA procura criar espaço para que conhecimentos frequentemente invisíveis possam ser escutados, partilhados e reinterpretados através da criação contemporânea.

O projeto contribui para reforçar relações entre gerações, aproximar artistas e comunidade, valorizar formas de conhecimento situado e permitir que a memória de um território seja entendida não apenas como herança do passado, mas como recurso para imaginar o futuro.

Alinha-se com os princípios da New European Bauhaus — beleza, sustentabilidade e inclusão —, cruzando criação artística, património, participação, conhecimento local e relação com a paisagem.

Contribui igualmente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 4, 10, 11 e 17, através da aprendizagem e transmissão intergeracional, da valorização de vozes e conhecimentos pouco representados, da salvaguarda do património cultural e do trabalho em parceria.

FRIGÉNIA começa com uma pergunta simples: o que pode acontecer quando damos tempo para escutar aquilo que um território ainda sabe?

 


 

Ficha técnica e entidades envolvidas

FRIGÉNIA — Rural Landscapes Lab
Primeira edição · 2026

Promotor
Foundation DaST — Design a Sustainable Tomorrow

Plataforma local
Convento da Terra 

Período da residência
6 de outubro a 19 de novembro de 2026

Duração
45 dias

Artistas residentes

Mili Vizcaíno — Espanha
Música · Oralidade · Património imaterial · Memória

Luca Gori — Itália
Artes visuais · Perceção sensorial · Terra · Matéria · Paisagem · Modos de habitar

Hanna Ilczyszyn — Bélgica / Polónia
Pintura · Cerâmica · Pessoas · Memória · Pertença · Paisagem

Sadrie Alves — Bélgica / Brasil
Artes visuais · Performance · Voz · Oralidade · Transmissão intergeracional

Projeto associado

Jeanne Roualet — França / Évora
Poesia oral · Escrita · Argila · Matéria · Memória

Mentoria e acompanhamento

Patrícia Hortinhas
Mentoria de proximidade · Mediação comunitária · Ligação ao território

Rita Neves
Coordenação · Acompanhamento transversal · Articulação DaST / Torrão LAB

Frédéric Coustols
Paisagem · Regeneração · Ecologia integral · Arte e estética · Conservação e restauro

Carlos Bragança Santos
Paisagem rural · Ecologia · Agricultura · Água · Território

Simon Punter
Comunidade · Participação · Lugar · Reciprocidade

Outros contributos

Phil Hawes
Arquitetura · Clima · Matéria · Construção · Modos de habitar

António Ricardo Costa
Arquitetura · Sustentabilidade · Conforto ambiental · Energia · Património construído

Filipa Assis
Participação em momentos da residência e articulação com outros processos culturais em desenvolvimento no Torrão

Datas principais

Abertura da residência
6 de outubro de 2026
09h00–16h00

Apresentação pública
14 e 15 de novembro de 2026

Conclusão da residência
19 de novembro de 2026

Apoio
Culture Moves Europe / Goethe-Institut

Agradecimentos

Agradecemos, em primeiro lugar, a Frigénia Maria da Conceição Sequeira, cuja voz, poesia e percurso deram origem ao nome e ao ponto de partida desta residência.

Agradecemos aos artistas Mili Vizcaíno, Luca Gori, Hanna Ilczyszyn, Sadrie Alves e Jeanne Roualet pela disponibilidade para entrar neste território com tempo, curiosidade e abertura.

O nosso agradecimento estende-se aos mentores, colaboradores, parceiros e, sobretudo, às pessoas do Torrão que irão abrir portas, partilhar memórias, conhecimentos, histórias e tempo ao longo destas seis semanas.

A FRIGÉNIA é apoiada pelo Culture Moves Europe, iniciativa financiada pela União Europeia e implementada pelo Goethe-Institut.