filipa silveira para o projeto jiu xian garden village na china

"No universo, tudo chega e tudo parte. Como as marés de um imenso mar. É um lugar de meditação, de presença, de coexistência, onde nos encontramos, onde fazemos os nossos desejos, ao som da melodia das canas de bambu."

Filipa Silveira
Creative Artist & Sculpture Artist

"uma continuação de mim"

Fui inspirada por um desenho que fiz com tinta da China.
Esse desenho, com a sua forma embrionária e algo antropomórfica, parece indicar vida e morte.
Quando nascemos, temos a certeza de que os nossos corpos serão devolvidos à terra.
A terra, e os seus milhares de habitantes microscópicos, encarregar-se-á de nos consumir.
O espírito é devolvido ao universo.
O espírito está sempre no universo.
Quando estamos vivos e feitos de matéria, ele está dentro dos nossos corpos.
Como um desenho traçado a carvão.
Quando morremos, o espírito voa para o cosmos.
Como um desenho submerso em água, o carvão dissolve-se.
Espalha-se.
Renascemos.

No universo, tudo chega e tudo parte.
Como as marés de um mar gigante.
É um lugar de meditação, de presença, de coexistência, onde nos encontramos, onde fazemos os nossos desejos, ao som da melodia das canas de bambu.
Também sopramos e assobiamos os nossos desejos através de uma cana.
Sopramos ao vento, a Deus, às montanhas.
Em Jiuxian, um diamante paradisíaco no sul da China, no coração de Guilin.
Num vale onde o eco é poderoso, também os podemos gritar.

Comecei a aplicar o desenho com pedras no chão.
Na relva.
Um desenho no qual coloquei pedras numa linha contínua.
Na forma de um contorno.

O início de uma grande viagem.
Uma continuação de mim.
As pedras colocadas uma a uma.
Ajustando-as deliberadamente, como se fosse um puzzle gigantesco.
Um desenho-lápis-papel.
Um desenho-pedras-relva-terra.
Uma combinação forte, pesada, efémera, devolvida ao tempo.
A solidão.
As canas assobiam melodias para as montanhas, que me observam todos os dias.
São espectadores atentos, repetindo o que digo, o som que faço com as pedras, ou a música das canas de bambu.
Devolvem os sons que entram nos meus ouvidos e me inspiram na composição da natureza.

Senti-me acolhida pela natureza.
Um amor profundo apodera-se de mim.
O mosaico gigante ganha forma, cor, vida, visitantes, bisontes, abelhas e cães, e toda a fauna.
É trabalhar com o que a natureza nos dá.
Uma continuação de mim.

sobre a artista

Filipa Silveira, nascida em 1978, realizou uma formação base em joalharia e em artes decorativas no Ar.Co, em 2007, tendo igualmente concluído o Curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 2003. Atualmente frequenta o terceiro ano de escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
O percurso profissional e artístico da Filipa inclui a participação em numerosas exposições individuais e coletivas, enquanto o seu desenho e a sua modelação nos transportam para um universo onde encontramos explosões controladas e desaceleradas, guiadas pela fluidez da sua imaginação.

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