Do Pão do Vagar
Do Pão do Vagar é um programa cultural e artístico desenvolvido a partir do Torrão e da tradição do pão alentejano, propondo uma reflexão sobre a relação entre alimento, paisagem, biodiversidade, memória e futuro.
Entre outubro de 2026 e novembro de 2027, o programa acompanha o pão desde muito antes de chegar à mesa: o solo, as sementes, as plantas, a paisagem, os gestos de cultivar e colher, a moagem, a fermentação, as receitas, as palavras e os conhecimentos transmitidos entre gerações.
Através de residências artísticas, investigação, trabalho de campo, práticas educativas e momentos de partilha pública, Do Pão do Vagar cruza criação contemporânea, património imaterial, agroecologia e participação comunitária, tendo o Torrão como território principal de investigação e experimentação.
Que paisagem contém um pão?
Um pão contém muito mais do que farinha, água, sal e fermento.
Contém um solo e uma determinada forma de o cultivar. Contém sementes, água, plantas e microrganismos. Contém escolhas agrícolas e económicas. Contém trabalho, técnicas, palavras, receitas e formas de organização comunitária.
E contém tempo.
Do Pão do Vagar parte desta relação para olhar simultaneamente para o passado e para o futuro.
Por um lado, procura reconhecer e documentar memórias, práticas e saberes associados ao ciclo tradicional do pão no Torrão.
Por outro, pergunta que pães poderão nascer de paisagens mais biodiversas e de formas de produção capazes de reconstruir relações entre solo, alimento e território.
Não se trata de reproduzir nostalgicamente um passado. Trata-se de perceber o que podemos aprender com ele para imaginar outras possibilidades de futuro.
Dois projetos, dois tempos
O programa articula dois projetos complementares.
O Pão do Futuro Antigo
Coletivo LANDRA — Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho, com Clara Santiago
O Pão do Futuro Antigo parte do pão para explorar alternativas ao monocultivo e à simplificação da paisagem agrícola.
Ao longo de cinco residências distribuídas pelas 4 estações do ano, os artistas acompanham com a comunidade e a escola um processo que vai do solo à panificação: observação da vida da terra, reconhecimento de plantas, sementeira, criação de consorciações, acompanhamento da biodiversidade, colheita, experimentação de farinhas, fermentação e produção de pão.
O montado e os ecossistemas locais funcionam como referências para pensar sistemas agrícolas mais complexos, capazes de produzir alimento a partir de relações entre diferentes espécies e não apenas de uma cultura isolada.
Ao longo do processo, serão reunidos materiais visuais, sonoros e escritos, experiências, aprendizagens e pães experimentais que darão origem a um manual digital e a uma instalação final no Museu Etnográfico do Torrão.
A pergunta deixa então de ser apenas como fazer outro pão.
Passa também a ser:
Que território precisamos de cultivar para que outro pão possa existir?
Do Pão do Tempo Longo
Projeto BRUTA — Patrícia Miguel Dias
Do Pão do Tempo Longo percorre o caminho inverso.
Parte daquilo que ainda permanece na memória do território para mapear o ciclo do pão na freguesia do Torrão e nas áreas limítrofes.
Quem cultivava? Onde se moía? Que pães e doces se faziam? Que receitas permanecem? Que palavras, objetos e gestos pertenciam a esse ciclo? Quem ainda os conhece?
Através de trabalho de campo, escuta, entrevistas e documentação em texto, áudio, fotografia e desenho, o projeto reúne testemunhos, receitas, vocabulário, práticas, espaços e memórias relacionados com o pão. O resultado será organizado também num mapa digital, preservando e tornando acessível parte deste património vivo.
A investigação regressa depois à comunidade através de oficinas e momentos de partilha, nos quais os interlocutores locais participam na transmissão de receitas, práticas de massa azeda e fermentação longa, saberes de padaria, dizeres e cânticos associados ao ciclo do pão.
Um diálogo ibérico sobre o pão
O programa abre também uma conversa entre o Torrão e outros territórios.
Em 2027, Ibán Yarza, investigador, autor e divulgador da cultura do pão, junta-se ao processo de Do Pão do Tempo Longo, numa incursão pelo território e num encontro dedicado à experiência de levantamento dos pães de pueblo em Espanha.
A comparação permite colocar lado a lado diferentes pães, paisagens, comunidades e formas de transmissão de conhecimento, ampliando a reflexão sobre o pão enquanto património cultural vivo.
A escola como território de aprendizagem
A escola não participa em Do Pão do Vagar apenas como público.
Participa no próprio processo.
Ao longo das estações, os alunos observam o solo, reconhecem plantas, semeiam, plantam, acompanham culturas, experimentam farinhas, ceifam, debulham, moem e fazem pão.
Ecologia, alimentação, património, ciência, arte e história deixam assim de surgir como assuntos separados e tornam-se partes de uma mesma experiência.
O Agrupamento de Escolas do Torrão acompanha particularmente o processo de O Pão do Futuro Antigo, em articulação com o Plano Nacional das Artes e o Plano Cultural de Escola.
O percurso estabelece também relações com escolas e comunidades de Arraiolos, Mora e Mértola, prolongando a aprendizagem para outros territórios.
O tempo como matéria
Do Pão do Vagar desenvolve-se ao longo de mais de um ano porque algumas coisas não podem ser aceleradas.
Uma semente precisa de germinar.
Um solo precisa de responder.
Uma planta precisa de atravessar estações.
Uma memória precisa de confiança para ser partilhada.
Uma massa precisa de fermentar.
É também neste sentido que o programa fala de Vagar: não como lentidão pela lentidão, mas como atenção aos tempos necessários para observar, compreender, aprender, transformar e transmitir.
A programação articula residências artísticas, trabalho de campo, encontros com a comunidade, oficinas, apresentações públicas e ativações entre outubro de 2026 e novembro de 2027.
Do Torrão para outras paisagens
O Torrão é o núcleo do programa.
A escola, o Museu Etnográfico, as Padarias Reunidas, os terrenos de experimentação, o montado e, sobretudo, as pessoas que guardam experiências e conhecimentos ligados ao ciclo do pão constituem o território de trabalho.
Em 2027, algumas das ferramentas e aprendizagens aqui desenvolvidas serão ativadas em Mora, Vimieiro, Arraiolos e Mértola, através de escolas, associações e estruturas culturais.
Não se pretende reproduzir o Torrão noutro lugar.
Cada território tem os seus solos, alimentos, paisagens, memórias e pessoas.
A questão é perceber o que pode ser aprendido num lugar e transformado por outro.
Impacto para além do crescimento
Do Pão do Vagar parte de uma ideia simples: nem todo o impacto se mede por crescimento.
Pode medir-se pela qualidade das relações que ficam, pelo conhecimento que não se perde, pela capacidade de uma escola se reconhecer como parte ativa do território, pela recuperação de um solo, pela diversidade que regressa a uma parcela de terra ou pela confiança criada entre pessoas que antes não trabalhavam juntas.
Ao longo do programa, interessa-nos observar o que muda em várias escalas:
— na paisagem, através da experimentação com sistemas mais biodiversos e regenerativos;
— no conhecimento, documentando práticas, palavras, receitas, gestos e memórias que podem desaparecer se deixarem de ser transmitidos;
— na educação, criando situações em que crianças e jovens aprendem através da experiência direta e da relação com o território;
— na comunidade, aproximando gerações, produtores, artistas, escolas e instituições;
— na cultura, tratando o pão não como um objeto fixo do passado, mas como património vivo, capaz de continuar a transformar-se;
— na capacidade do território, deixando metodologias, relações e ferramentas que possam continuar para além do calendário do programa.
O objetivo não é fazer mais por fazer mais.
É perceber se é possível fazer melhor, com mais diversidade, mais conhecimento partilhado e maior capacidade local para imaginar e construir futuros próprios.
Este entendimento aproxima Do Pão do Vagar de alguns referenciais mais amplos de transformação sustentável.
O programa contribui em particular para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ligados à alimentação e sistemas produtivos mais sustentáveis, educação, comunidades resilientes, produção e consumo responsáveis, ação climática, biodiversidade terrestre e parcerias — nomeadamente os ODS 2, 4, 11, 12, 13, 15 e 17.
Encontra também afinidades com os princípios do New European Bauhaus, ao cruzar sustentabilidade, participação, cultura, qualidade da experiência e inclusão, através de uma abordagem transdisciplinar em que artistas, escolas, produtores, habitantes e instituições trabalham sobre um mesmo território e sobre problemas concretos.
Assim, a regeneração não é entendida apenas como melhoria ambiental ou crescimento económico. É também capacidade de aprender, cuidar, transmitir, participar e criar novas possibilidades a partir dos recursos e conhecimentos que já existem num lugar.
Ficha técnica e entidades envolvidas
Programa
Do Pão do Vagar
Período
Outubro 2026 — novembro 2027
Território principal
Torrão, Alcácer do Sal
Programa apoiado por
Évora_27 — Capital Europeia da Cultura
Open Call A Nossa Vez
Candidatura apresentada por
Colectivo de Amigos do Convento da Terra — grupo informal liderado por Filipa Assis
Apoio institucional e cofinanciamento
Foundation DaST — Design a Sustainable Tomorrow
Plataforma de acolhimento, mediação e articulação territorial
Convento da Terra
Projetos artísticos
O Pão do Futuro Antigo
Coletivo LANDRA — Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho
com Clara Santiago
Do Pão do Tempo Longo
Projeto BRUTA — Patrícia Miguel Dias
Convidado
Ibán Yarza
Educação
Plano Nacional das Artes
Agrupamento de Escolas do Torrão
Agrupamento de Escolas de Arraiolos
Escola Básica e Secundária de Mora
Escola de Mértola
Território, comunidade e património
Junta de Freguesia do Torrão
Município de Alcácer do Sal
Museu Etnográfico do Torrão
Universidade Sénior do Torrão
Santa Casa da Misericórdia do Torrão
Produção, agricultura e agroecologia
Padarias Reunidas do Torrão
Herdade do Portocarro
Associação Terra Sintrópica
Associação monte da amOrada
Circulação e acolhimento
Córtex Frontal / Associação Córtexcult
Centro Interpretativo do Mundo Rural — Vimieiro
Antiga Fábrica de Massas Aliança — Arraiolos
Casinhas com Alma — Torrão
Comunicação e amplificação editorial
Gerador
Reconhecimento regional
Turismo do Alentejo — Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo
Resultados previstos
Manual digital — O Pão do Futuro Antigo
Mapa digital — Do Pão do Tempo Longo
Instalação e performance
Oficinas e apresentações públicas
Ativações em diferentes territórios do Alentejo
Agradecimentos
Do Pão do Vagar constrói-se com muitas pessoas para além das que aparecem numa ficha técnica. Agradecemos a todos os habitantes do Torrão que têm partilhado tempo, memórias, conhecimentos, receitas, lugares e histórias com as equipas artísticas; aos padeiros, agricultores e produtores; às pessoas mais velhas que guardam experiências ligadas ao ciclo do pão; aos professores, funcionários e alunos das escolas envolvidas; e a todos os que, ao longo do programa, nos vão ajudando a compreender melhor a relação entre a paisagem, o alimento e a cultura deste território.
Um agradecimento especial às pessoas e organizações que abrem os seus espaços e conhecimentos ao projeto — porque este trabalho só é possível quando o território deixa de ser apenas o lugar onde um programa acontece e passa a ser parte de quem o constrói