Laboratório dos Sedimentos
Colectivo Guarda-Rios
Escutar, mapear e moldar o Xarrama
Entre o som invisível que percorre o fundo da albufeira, as pedras que fazem cantar o rio, os sedimentos transportados pelas cheias e as memórias dos antigos pegos, o Laboratório dos Sedimentos desenvolveu no Torrão um processo de investigação e criação artística em torno do rio Xarrama.
Promovido pelo Coletivo Guarda-Rios, com acolhimento e produção local do Convento da Terra, o projeto reuniu artistas de diferentes disciplinas para observar o rio não apenas como curso de água, mas como ecossistema, arquivo material e espaço de relação entre paisagem e comunidade.
O caudal sólido e os sons escondidos
A primeira residência de 2026 reuniu Nuno Barroso e Ewelina Rosinska numa primeira imersão na vila do Torrão, na sua história de proximidade com o Xarrama e nas transformações que o rio atravessa atualmente.
Corvos-marinhos, carpas, achigãs, lagostins, lontras, jacintos-de-água, gabros, dioritos, areias, assoreamento e cheias foram alguns dos elementos observados durante o processo.
A investigação centrou-se nos sedimentos e no seu fluxo, particularmente visível após as cheias recentes – Fevereiro 2026 -, mas também nos blocos de terra comprimida presentes na construção tradicional da vila e nos sons escondidos na profundidade e nas margens da albufeira de Vale do Gaio.
A residência incluiu as primeiras experiências para uma peça sonora dedicada àquilo que permanece sólido num rio: as pedras, as areias, os materiais transportados pela água e o chamado caudal sólido, muitas vezes menos visível do que o movimento da própria água.
As pedras que fazem cantar o Xarrama
Na segunda residência, realizada entre 16 e 22 de março de 2026, Francisco Pinheiro desenvolveu um conjunto de sons e textos em diálogo com as pedras do Xarrama.
Uma das referências do processo foi uma leitura partilhada pelo arquiteto paisagista Carlos Bragança, segundo a qual o hidrónimo Xarrama poderá relacionar-se com raízes pré-indo-europeias: karr, pedra, e ama, deusa-mãe-terra.
Mais do que assumir esta interpretação como uma certeza filológica, a residência utilizou-a como matéria poética e territorial para pensar a relação entre o nome, a geologia e a sonoridade do rio.
As pedras ajudam, de facto, a produzir o som do Xarrama. Mesmo alterado pela construção da Barragem de Vale do Gaio, o rio continua a revelar a sua força antes de se alargar na zona localmente conhecida como o “rabo da barragem”.
Foi essa relação entre o correr da água, a matéria mineral e a experiência das pessoas que orientou o trabalho artístico de Francisco Pinheiro.
Os pegos e a memória de outro rio
Durante as residências, os artistas encontraram um rio que permanece vivo não apenas pela sua dimensão ecológica, mas também pela memória e pelos usos que ainda ligam a população ao Xarrama.
As pessoas recordam os tempos em que se mergulhava no rio, se lavava a roupa nas margens e se cantavam canções associadas ao trabalho e à vida quotidiana.
Uma expressão particular dessa relação são os pegos: zonas onde o rio abranda e ganha maior profundidade, formando pequenos poços naturais utilizados para nadar.
Segundo as memórias e os levantamentos locais, existiriam cerca de 18 pegos na área envolvente do Torrão. Um dos mais conhecidos é o Pego do Penedo de Cristo, visível a partir da ponte junto à Estrada Nacional 2.
Alguns desses lugares ficaram submersos ou foram transformados pela albufeira, mas permanecem mapeados nas memórias da população e no trabalho de partilha de conhecimento, mapeamento e limpeza desenvolvido em comunidade por um Xarrama Vivo.
As histórias que vão sendo partilhadas no Convento da Terra revelam uma preocupação clara com a necessidade de restaurar e proteger o rio e assegurar a continuidade da sua vida ecológica e cultural.
Um rio sujeito a diferentes pressões
A investigação artística decorreu num território marcado por diversas pressões ambientais, entre as quais a pecuária intensiva, os efluentes, o assoreamento, as espécies invasoras e a lixiviação associada ao olival intensivo.
O Laboratório dos Sedimentos não procurou apresentar soluções técnicas para estes problemas. O seu contributo consistiu em observar, registar e tornar mais visíveis as relações entre água, sedimentos, atividades humanas, biodiversidade e memória local.
Ao cruzar som, texto, imagem, instalação, fotografia e cerâmica, o projeto produziu novas formas de leitura do Xarrama e dos processos que continuam a transformar o rio.
Sedimentos como matéria e arquivo
A terceira residência reuniu António Júlio Duarte e Mingyu Wu, aprofundando a investigação sobre os sedimentos, os barros e as argilas associados ao Xarrama e ao sistema hidroagrícola de Vale do Gaio.
Através da fotografia, da escultura e da cerâmica, os sedimentos foram trabalhados não apenas como matéria física, mas como um arquivo do território: elementos que acumulam vestígios da geologia, do movimento da água, das práticas agrícolas e das sucessivas alterações da paisagem.
As três residências construíram, assim, diferentes aproximações ao mesmo rio:
– o som e o movimento invisível dos materiais;
– as pedras, as palavras e a memória;
– os sedimentos enquanto matéria de criação e documento da paisagem.
Impacto para além do crescimento
O Laboratório dos Sedimentos produziu resultados concretos:
– três residências artísticas e de investigação;
– cinco artistas envolvidos;
– cruzamento entre som, texto, filme, fotografia, desenho, instalação, escultura e cerâmica;
– observação do rio, da albufeira, dos solos e dos sedimentos;
– recolha de referências históricas, ambientais e comunitárias;
– criação de novos registos e interpretações sobre o Xarrama;
– reforço da ligação entre criação artística, investigação territorial e conhecimento local.
O impacto do projeto não se mede apenas pelo número de obras ou residências realizadas. Encontra-se também na capacidade de prestar atenção ao que tende a permanecer invisível: o som submerso, o transporte dos sedimentos, os lugares desaparecidos, as palavras utilizadas para nomear o rio e as memórias que continuam a ligá-lo à comunidade.
O projeto demonstra também como a criação artística pode contribuir para um conhecimento mais atento do território. Sem pretender substituir a investigação científica ou a intervenção ambiental, o Laboratório dos Sedimentos torna visíveis processos pouco observados — o transporte de materiais, os sons submersos, as alterações do caudal, a memória dos pegos e as relações entre água, geologia, agricultura e comunidade.
Neste sentido, o projeto cruza-se diretamente com o ODS 6 — Água Potável e Saneamento, pela atenção dedicada ao rio e aos ecossistemas de água doce; com o ODS 11 — Cidades e Comunidades Sustentáveis, pela valorização da memória, da paisagem e do património cultural local; com o ODS 15 — Proteger a Vida Terrestre, pela sensibilização para os ecossistemas ribeirinhos e para as pressões que os afetam; e com o ODS 17 — Parcerias para a Implementação dos Objetivos, através da colaboração entre artistas, estruturas culturais, especialistas e comunidade.
A continuidade proposta, envolvendo as escolas, reforçará também o contributo para o ODS 4 — Educação de Qualidade, ao transformar os materiais e métodos da investigação artística em experiências de aprendizagem territorial.
O Laboratório dos Sedimentos aproxima-se igualmente dos valores da New European Bauhaus: a beleza, através da criação artística e da experiência sensorial do rio; a sustentabilidade, através da atenção aos sistemas naturais, aos sedimentos e às transformações ambientais; e a inclusão, através da valorização do conhecimento local, das memórias da população e da futura participação das escolas e da comunidade na Assembleia do Rio.
Continuidade: devolver o processo ao território
O Laboratório dos Sedimentos foi concebido como um processo continuado, e não como uma sucessão isolada de residências.
A candidatura submetida à DGARTES para a fase seguinte prevê o aprofundamento e a devolução pública do trabalho através de:
– três sessões com as escolas;
– uma Assembleia do Rio;
– uma nova residência artística de cinco dias;
– uma performance e instalação final no Convento da Terra ALI.
Esta fase permitirá transformar os materiais, registos e perguntas produzidos pelos artistas em instrumentos de aprendizagem, participação e diálogo com a comunidade.
A concretização desta continuidade depende da aprovação da candidatura submetida à DGARTES.
Ficha técnica e entidades envolvidas
Projeto
Laboratório dos Sedimentos
Conceção e coordenação artística
Coletivo Guarda-Rios
Artistas em residência
Nuno Barroso
Ewelina Rosinska
Francisco Pinheiro
António Júlio Duarte
Mingyu Wu
Segunda residência
Francisco Pinheiro
16 a 22 de março de 2026
Entidade de acolhimento e produção local
Foundation DaST – Convento da Terra
Território de investigação
Rio Xarrama, Torrão e albufeira de Vale do Gaio
Financiamento do Coletivo Guarda-Rios
Direção-Geral das Artes / República Portuguesa — Cultura
Continuidade proposta
Candidatura submetida à DGARTES — resultado pendente
O Coletivo Guarda Rios é uma estrutura financiada pela DGArtes/ Ministério da Cultura, Juventude e Desporto
Créditos fotografia: © Coletivo Guarda Rios 2025